UMA TARDE
Numa certa tarde nos amamos.
Um segredo em nossas carnes
teve a luz dos diamantes.
Numa certa tarde nos amamos.
O mundo,ocupado
não tomou conhecimento.
Mas o mundo nunca foi o mesmo
a partir daquele instante.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
quinta-feira, 23 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Palavreando...
Todas as palavras têm
boca e não falam. Mas o
silêncio delas grita. Mas
o que sei é que a palavra
de um poeta tem que ter
substância dele. As palavras
têm que ter aflições
e sonhos.
(Manuel de Barros)
Coisa bem bonita, né? As palavras são carregadas de força, de aflições e sonhos, como disse o poeta. Não são ditas impunemente, revelam e escondem desejos. Há explícito no implícito, há implícito no explícito. Guetos, turmas, ambiências e vivências: nenhuma sai em vão. Ou confessam, ou escondem. Sempre com alguma intenção, nunca com neutralidade. Mas, ao dizer isso, qual minha intenção? Com certeza não é a de passar a imagem de "pensadora" antes de abrir minha boca, cometo muitas gafes, falo demais quando seria melhor calar, deixo de dizer o que tinha vontade... mas acredito nas palavras. Acredito quando me dizem "me faz bem, vou te procurar" e gostaria que acreditassem no que eu digo (às vezes até eu me espanto com meu discurso, mas quando vejo que a prática costuma respeitá-lo, me alivio); aliás, poucas coisas me incomodam tanto quanto não acreditarem no que digo. Não sou atriz, não tenho intenção de fazer da vida um laboratório, não tenho intenção de me enganar, assim como também não sou modelo de conduta. Se quero, quero e digo. Se não quero, não quero e digo (Tá, de vez em quando enrolo pra dizer um não, mas acabo dizendo). Às vezes quebro a cara, às vezes assusto, às vezes não sou entendida, mas mantenho a fé nas palavras, mesmo perdendo em quem as diz. Simples assim. Pois, seguindo uma "janela" do Galeano, do livro Palavras Andantes:
Em guarani, ñé~e significa "palavra" e também significa "alma".
Creem os índios guaranis que os que mentem a palavra, ou a dilapidam, são traidores da alma.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Dos outros...
"Sem tentar prever, não vou mais me decepcionar com nada"
(Superguidis)
"E se eu for o primeiro a prever
e poder desistir do que for dar errado?
Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!"
(Rodrigo Amarante)
"Se não se trata de um poder, mas sim de um impulso fisiológico, o amor só serve mesmo, sem perder suas reais características e finalidades, para se amar. E o que significa amar, além daquilo que explicam a fisiologia e a biologia? Não sei, não sei mesmo. Eu sinto, eu conheço, eu preciso, eu me delicio, eu me acabo por ele e com ele, mas não sei o que ele é. Porém, quando eu o uso como poder, contrariando sua natureza, sei perfeitamente no que ele se transforma: a maior e mais perigosa arma de chantagem autoritária que existe, através do qual se invalida o impulso da liberdade das pessoas, sobretudo enquanto amadas e amantes."
(Roberto Freire)
"Pra que nomes? Era azul e voava!"
(Mário Quintana)
Quando era piá tinha loucura por conhecer Gramado. Sei lá o que imaginava encontrar lá, a neve, o papai-noel, essa tal de felicidade... mas achava que devia ser o lugar mais bacana e maravilhoso do mundo. Meus pais estavam meio sem grana, minha mãe trabalhava em dois lugares, um salário só pra pagar a PUC dela, mas garantiram meu lugar numa excursão de conhecidos. Bá, forma dias e noites de muuuuuita expectativa, esperava até fugir pra lá e morar por todo sempre neste lugar encantado. Claro que, no alto da sabedoria dos meus 10 aos, era bem simples: era só fugir da excursão, bater num abrigo e viver feliz para sempre. Juntei, durante dois meses, todas as moedas possíveis, trabalhei por dinheiro (okei, okei, era só lavando a louça pra minha mãe), deixei de merendar e de comprar bolachinha recheada. Tudo pra garantir minha subsistência por lá. Claro que nem dormi na noite anterior...na hora de embrarcar, chorei compulsivamente, pois tinha certeza que nunca mais veria meus pais, já que eu não iria voltar.
Chegando lá... nada, nadica de emoção. Achei tudo tão sem graça que me neguei até a comprar chocolate. Voltei com toda graninha que tinha juntado e com o coração partido. Não gostei, não vibrei, não fugi da excursão.
Tudo isso pra contar que aprendi a não ter expectativas. Aprendi que é bom quando eu faço ser bom, quando estou com vontade que assim seja. Não deposito mais a responsabilidade no outro, em nada que esteja além do meu alcance, além da minha possibilidade de intervir. Se não posso fazer, meter a mão, opinar...não é pra mim. Agora, quando sinto que posso, quando o olho brilha, quando a vontade bate, quando há espaço para as reticências...
Afinal:
"Eu faço minhas coisas e você faz as suas coisas.
Não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas e você não está neste mundo para satisfazer as minhas.
Você é você, e eu sou eu. E se por acaso nos encontrarmos será maravilhoso.
E se não, não há nada para fazer."
(frederick Perls)
E pra encerrar, o poeta mais bacana, marginal e visionário, Leminski:
"Não discuto com o destino:
o que pintar,
eu assino."
(Superguidis)
"E se eu for o primeiro a prever
e poder desistir do que for dar errado?
Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!"
(Rodrigo Amarante)
"Se não se trata de um poder, mas sim de um impulso fisiológico, o amor só serve mesmo, sem perder suas reais características e finalidades, para se amar. E o que significa amar, além daquilo que explicam a fisiologia e a biologia? Não sei, não sei mesmo. Eu sinto, eu conheço, eu preciso, eu me delicio, eu me acabo por ele e com ele, mas não sei o que ele é. Porém, quando eu o uso como poder, contrariando sua natureza, sei perfeitamente no que ele se transforma: a maior e mais perigosa arma de chantagem autoritária que existe, através do qual se invalida o impulso da liberdade das pessoas, sobretudo enquanto amadas e amantes."
(Roberto Freire)
"Pra que nomes? Era azul e voava!"
(Mário Quintana)
Quando era piá tinha loucura por conhecer Gramado. Sei lá o que imaginava encontrar lá, a neve, o papai-noel, essa tal de felicidade... mas achava que devia ser o lugar mais bacana e maravilhoso do mundo. Meus pais estavam meio sem grana, minha mãe trabalhava em dois lugares, um salário só pra pagar a PUC dela, mas garantiram meu lugar numa excursão de conhecidos. Bá, forma dias e noites de muuuuuita expectativa, esperava até fugir pra lá e morar por todo sempre neste lugar encantado. Claro que, no alto da sabedoria dos meus 10 aos, era bem simples: era só fugir da excursão, bater num abrigo e viver feliz para sempre. Juntei, durante dois meses, todas as moedas possíveis, trabalhei por dinheiro (okei, okei, era só lavando a louça pra minha mãe), deixei de merendar e de comprar bolachinha recheada. Tudo pra garantir minha subsistência por lá. Claro que nem dormi na noite anterior...na hora de embrarcar, chorei compulsivamente, pois tinha certeza que nunca mais veria meus pais, já que eu não iria voltar.
Chegando lá... nada, nadica de emoção. Achei tudo tão sem graça que me neguei até a comprar chocolate. Voltei com toda graninha que tinha juntado e com o coração partido. Não gostei, não vibrei, não fugi da excursão.
Tudo isso pra contar que aprendi a não ter expectativas. Aprendi que é bom quando eu faço ser bom, quando estou com vontade que assim seja. Não deposito mais a responsabilidade no outro, em nada que esteja além do meu alcance, além da minha possibilidade de intervir. Se não posso fazer, meter a mão, opinar...não é pra mim. Agora, quando sinto que posso, quando o olho brilha, quando a vontade bate, quando há espaço para as reticências...
Afinal:
"Eu faço minhas coisas e você faz as suas coisas.
Não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas e você não está neste mundo para satisfazer as minhas.
Você é você, e eu sou eu. E se por acaso nos encontrarmos será maravilhoso.
E se não, não há nada para fazer."
(frederick Perls)
E pra encerrar, o poeta mais bacana, marginal e visionário, Leminski:
"Não discuto com o destino:
o que pintar,
eu assino."
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Detalhes tão pequenos...
Estar solteira(o) pela vida, ainda mais recentemente, traz descobertas desconcentrantes e reveladoras. O sol por exemplo? Já repararam como brilha mais depois de uma separação? E as compras do supermercado? Já repararam como muda o caráter do conteúdo do carrinho?
Pois tive uma dessas percepções ao passear pelo BIG... de repente olhei pro carrinho e encontrei: duas garrafas de vinho, chocolate, creme depilador e uma calcinha nova... bá! me dei conta que qualquer um que olhasse aquele carrinho saberia que eu era uma recém separada - e mal intencionada ainda por cima!
Resolvi me redimir e peguei um danoninho... piorei a situação: uma recém separada, mal intencionada e mãe de família!
Fui lá e peguei mais um vinho... In vino veritas!
Pois tive uma dessas percepções ao passear pelo BIG... de repente olhei pro carrinho e encontrei: duas garrafas de vinho, chocolate, creme depilador e uma calcinha nova... bá! me dei conta que qualquer um que olhasse aquele carrinho saberia que eu era uma recém separada - e mal intencionada ainda por cima!
Resolvi me redimir e peguei um danoninho... piorei a situação: uma recém separada, mal intencionada e mãe de família!
Fui lá e peguei mais um vinho... In vino veritas!
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Contrato de risco
I- Da natureza
Art.1º- O presente contrato tem como fim estipular normas de convivência entre contratante e contratado, assegurando satisfação garantida para ambas as partes.
II-Da abrangência
Art. 2º- No momento em que contratante e contratado sentirem que há uma vibração além das relações humanas comuns - do tipo estabelecidas na padaria, no posto de gasolina, no ambiente de trabalho...- o presente contrato passa a vigorar.
Art. 3º- O presente contrato extinguir-se-á com o surgimento da entidade "compromisso" - passando a ser regido por outra lei; ou quando as partes chegarem à conclusão de que o olho já não brilha, o coração já não dispara, as borboletas abandonaram o estômago e os encontros - até então reveladores, passam a ser mero cumprimento de tabela.
III- Das obrigações
Art.4º- Fica estipulado que contratante e contratado - que podem trocar de função durante a vigência do contrato - têm como única obrigação sentir-se bem na relação estipulada, relação essa que dispensa nome, endereço e prazo de validade.
IV- Das desobrigações
Art.5º- O contratante, assim como o contratado, está desobrigado a cumprir papéis tradicionais da organização social-cristã-ocidental. Isso significa que ambas as partes não são obrigadas a manter ambiente domiciliar obrigatório, especialmente aos sábados, domingos e feriados; aliás, é imprenscindível para a vigência deste contrato não haver ambiente domiciliar obrigatório.
Art. 6º- Não haverá, sob hipótese alguma, perguntas e cobranças referentes à vida pessoal que se mantém quando contratante e contratado não estão juntos. A relação contratual prevê apenas o "agora", sem "antes" ou "depois".
Parágrafo único: Se o contratante ou contratado sentir necessidade de contar algo privado, não poderá exigir reciprocidade da outra parte.
Art. 7º- Contratante e contratado ficam, de antemão, sabedores da situação de "eventuais" na vida um do outro. Isso significa que a "próxima vez" poderá ser daqui a dias, semanas, meses ou décadas - até mesmo nunca mais. A periocidade dos encontros dependerá unicamente do bem estar gerado no estar um com o outro, jamais havendo criação de vínculo obrigatório, nem caracterização de união estável, que tenham como objetivo "cobrar presença".
Art.8º- O vínculo emocional inevitavelmente surgido da relação contratual será encarado como bônus pessoal, pois sempre se aprende algo nas relações humanas - se não pelo exemplo, pelo contraponto.
V-Dos casos omissos
Art.9º- As situações surgidas da relação contratante/contratado não previstos nesta lei, serão resolvidos pela SDRI (Santa DR da Inquisição), composta unicamente pelas partes, sem envolvimento de terceiros, só quartos. [:)]
Parágrafo único: Essa lei será revogada imediatamente caso surja o AMOR entre as partes, ou entre as partes e outrem.
Art.1º- O presente contrato tem como fim estipular normas de convivência entre contratante e contratado, assegurando satisfação garantida para ambas as partes.
II-Da abrangência
Art. 2º- No momento em que contratante e contratado sentirem que há uma vibração além das relações humanas comuns - do tipo estabelecidas na padaria, no posto de gasolina, no ambiente de trabalho...- o presente contrato passa a vigorar.
Art. 3º- O presente contrato extinguir-se-á com o surgimento da entidade "compromisso" - passando a ser regido por outra lei; ou quando as partes chegarem à conclusão de que o olho já não brilha, o coração já não dispara, as borboletas abandonaram o estômago e os encontros - até então reveladores, passam a ser mero cumprimento de tabela.
III- Das obrigações
Art.4º- Fica estipulado que contratante e contratado - que podem trocar de função durante a vigência do contrato - têm como única obrigação sentir-se bem na relação estipulada, relação essa que dispensa nome, endereço e prazo de validade.
IV- Das desobrigações
Art.5º- O contratante, assim como o contratado, está desobrigado a cumprir papéis tradicionais da organização social-cristã-ocidental. Isso significa que ambas as partes não são obrigadas a manter ambiente domiciliar obrigatório, especialmente aos sábados, domingos e feriados; aliás, é imprenscindível para a vigência deste contrato não haver ambiente domiciliar obrigatório.
Art. 6º- Não haverá, sob hipótese alguma, perguntas e cobranças referentes à vida pessoal que se mantém quando contratante e contratado não estão juntos. A relação contratual prevê apenas o "agora", sem "antes" ou "depois".
Parágrafo único: Se o contratante ou contratado sentir necessidade de contar algo privado, não poderá exigir reciprocidade da outra parte.
Art. 7º- Contratante e contratado ficam, de antemão, sabedores da situação de "eventuais" na vida um do outro. Isso significa que a "próxima vez" poderá ser daqui a dias, semanas, meses ou décadas - até mesmo nunca mais. A periocidade dos encontros dependerá unicamente do bem estar gerado no estar um com o outro, jamais havendo criação de vínculo obrigatório, nem caracterização de união estável, que tenham como objetivo "cobrar presença".
Art.8º- O vínculo emocional inevitavelmente surgido da relação contratual será encarado como bônus pessoal, pois sempre se aprende algo nas relações humanas - se não pelo exemplo, pelo contraponto.
V-Dos casos omissos
Art.9º- As situações surgidas da relação contratante/contratado não previstos nesta lei, serão resolvidos pela SDRI (Santa DR da Inquisição), composta unicamente pelas partes, sem envolvimento de terceiros, só quartos. [:)]
domingo, 12 de julho de 2009
Eu tenho tanto pra lhe falar...
A vida da gente tem trilha sonora, isso é fato. Se pudesse gravar uma seleção das músicas que marcaram minha trajetória nessa vida, o Roberto estaria presente com muitas de suas pérolas.
Domingos de manhã...todos os domingos, durante 25 anos em que morei na casa de meus pais, tiveram o Rei como trilha. TODOS. No auge da adolescência, eu passei a não gostar dele, porque gostar das suas músicas significava dar importância pra algo que minha mãe gostava. E isso é inadimissível pra uma adolescente, filha única, capricorniana e sempre do contra.
Azar, agora eu amo. E assumo. E ouço no carro numa loooooooonga seleção em mp3, que eu mesma fiz. E fui pra shopping, às 8h30 da manhã, enfrentar uma fila de velhinhas selvagens, que lutavam bravamente por um lugar nas cadeiras azuis, que custavam meigos R$ 240 pilas. E briguei com a velhinha da frente, que queria dar furo pra outra amigavelhinha dela. Claro que fui pra fila pra minha mãe. Mas sai com meu ingresso também. Não nas cadeiras azuis, mas na arquibancada, com o povão, que é meu lugar.
E vendo há pouco uma entrevista dele, eu enchi os olhos d'água. E nem tô de TPM. Só deixei aflorar a sensibilidade que ele canta na maioria das suas composições.
É uma brasa, bixo!
Domingos de manhã...todos os domingos, durante 25 anos em que morei na casa de meus pais, tiveram o Rei como trilha. TODOS. No auge da adolescência, eu passei a não gostar dele, porque gostar das suas músicas significava dar importância pra algo que minha mãe gostava. E isso é inadimissível pra uma adolescente, filha única, capricorniana e sempre do contra.
Azar, agora eu amo. E assumo. E ouço no carro numa loooooooonga seleção em mp3, que eu mesma fiz. E fui pra shopping, às 8h30 da manhã, enfrentar uma fila de velhinhas selvagens, que lutavam bravamente por um lugar nas cadeiras azuis, que custavam meigos R$ 240 pilas. E briguei com a velhinha da frente, que queria dar furo pra outra amigavelhinha dela. Claro que fui pra fila pra minha mãe. Mas sai com meu ingresso também. Não nas cadeiras azuis, mas na arquibancada, com o povão, que é meu lugar.
E vendo há pouco uma entrevista dele, eu enchi os olhos d'água. E nem tô de TPM. Só deixei aflorar a sensibilidade que ele canta na maioria das suas composições.
É uma brasa, bixo!
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